Em um mundo no qual a informação está cada vez mais acessível, o verdadeiro diferencial competitivo não está no que sabemos, mas no que perguntamos. Nesse contexto, o Leadership Prompting é a capacidade de formular perguntas estratégicas que desafiam suposições, estimulam inovação e extraem o melhor tanto de equipes humanas quanto de ferramentas de Inteligência Artificial.
Em uma entrevista recente ao New York Times, Jensen Huang, CEO e fundador da NVIDIA, revelou um aspecto essencial de seu estilo de liderança: “Hoje, dou menos respostas e faço muito mais perguntas. Através das perguntas, forço meu time de gestores a explorar ideias que, de outra forma, jamais considerariam.”
Essa abordagem reflete um princípio fundamental da liderança na era digital: a capacidade de formular perguntas estratégicas pode ser mais valiosa do que oferecer respostas prontas. Esse conceito pode ser definido como Leadership Prompting – uma aplicação da técnica de prompting, amplamente utilizada no campo da Inteligência Artificial.
Na IA, prompting refere-se ao ato de fornecer um input estruturado para direcionar a resposta de um modelo. Esse input pode assumir a forma de uma pergunta, um comando ou um enunciado que estabelece o contexto e os parâmetros da interação. No contexto da liderança, esse mesmo princípio se aplica: a qualidade das perguntas determina a profundidade das respostas – seja de uma equipe, seja de um sistema de IA.
Um exemplo clássico ocorreu nos anos 1980, com a popularização das calculadoras. Até então, a realização de cálculos complexos era uma competência restrita a especialistas em matemática. No entanto, com o avanço dessas ferramentas, pessoas sem formação avançada passaram a obter resultados tão precisos – ou até superiores – aos de matemáticos experientes.
Esse impacto foi comprovado já em 1989 pelo National Council of Teachers of Mathematics (NCTM). Seu estudo Curriculum and Evaluation Standards for School Mathematics demonstrou que estudantes que utilizavam calculadoras com frequência não apresentavam desempenho inferior em habilidades aritméticas em relação aos que evitavam essas ferramentas – em muitos casos, eles tiveram resultados superiores.
No contexto da liderança, Leadership Prompting implica, sobretudo, na capacidade de instigar reflexões profundas e catalisar mudanças estratégicas dentro das equipes. Como destacou Jensen Huang, essa abordagem desafia gestores a explorarem novas ideias e a questionarem pressupostos antes aceitos sem contestação.
Esse método remonta a um princípio clássico do pensamento crítico: o questionamento estratégico como ferramenta de transformação. Assim como Sócrates, há mais de dois mil anos, desafiava crenças estabelecidas por meio da maiêutica, o Leadership Prompting estimula líderes a confrontarem visões ultrapassadas e a reavaliar paradigmas que podem ter se tornado obsoletos diante do ritmo acelerado das inovações tecnológicas.
Diante desse cenário, a capacidade de formular as perguntas certas torna-se um diferencial competitivo. Jane Fraser, CEO do Citi, reforça essa ideia ao afirmar, em entrevista à Fortune: “No mundo da IA, o acesso à informação virou commodity. O verdadeiro diferencial agora está na habilidade de formular bons prompts.”
Essa transformação não se limita à matemática – a IA democratizou o acesso ao conhecimento, tornando a informação uma commodity. Hoje, um colaborador sem formação jurídica pode rapidamente obter insights detalhados sobre regulamentações complexas, como privacidade de dados, com mais precisão do que um advogado generalista. Da mesma forma, um profissional de marketing sem experiência em design pode criar peças visuais sofisticadas utilizando ferramentas como Midjourney, alcançando resultados comparáveis – ou até superiores – aos de um designer experiente, desde que saiba orientar a IA corretamente.
Se o conhecimento técnico se tornou amplamente acessível, o verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de utilizar essas ferramentas de forma estratégica. Nesse contexto, o prompting se destaca como a competência-chave para maximizar o potencial da IA.
Um estudo publicado em 2024 na Computers and Education: Artificial Intelligence, intitulado “AI Literacy and Its Implications for Prompt Engineering Strategies”, de Nils Knoth, Antonia Tolzin, Andreas Janson e Jan Marco Leimeister, defende a inclusão do ensino de prompting nas escolas como parte da preparação para o mercado de trabalho do futuro.
Apesar de seu impacto direto na tomada de decisões e na inovação, a arte de formular perguntas estratégicas ainda é subestimada na formação de líderes empresariais. Em contrapartida, áreas como advocacia e medicina dependem do questionamento estruturado para diagnosticar problemas, interpretar cenários complexos e guiar ações de forma eficaz.
Essa lacuna foi evidenciada no estudo “The Surprising Power of Questions”, publicado na Harvard Business Review (2018), que destaca como a capacidade de formular perguntas certas pode gerar impactos significativos na comunicação, na construção de relacionamentos e na inovação dentro das organizações.
Isso já é percebido em exemplos práticos. Baseando-se no trabalho da psicóloga Carol Dweck, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, adotou um modelo de gerenciamento que vê em perguntas bem fundamentadas o principal fator para o aprendizado contínuo e a expansão das competências. Outro paradigma é a técnica dos 5 porquês, da Toyota. Desenvolvida pelo fundador da marca, Sakichi Toyoda, a estratégia consiste em fazer perguntas sucessivas começando com “por quê?”, buscando identificar a raiz de um problema e encontrar soluções mais eficazes. A abordagem permite que equipes resolvam problemas de forma ágil, sem precisar analisar diversas variáveis ao mesmo tempo. É importante salientar que o método foi incorporado à norma ISO 9001, consolidando-se como um dos pilares da gestão da qualidade.
Diante desse cenário, aprimorar a habilidade de Leadership Prompting exige um enfoque estruturado. Para isso, é essencial dominar três passos fundamentais:
1. Abandonar o ego e ampliar o repertório de perguntas
O primeiro passo para aprimorar o Leadership Prompting é cultivar uma mentalidade de curiosidade constante. Estudos mostram que crianças fazem significativamente mais perguntas do que adultos, pois utilizam o questionamento como ferramenta essencial para entender o mundo. De acordo com a pesquisa “Children’s Questions: A Mechanism for Cognitive Development”, de Michel Chouinard, esse hábito impulsiona o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem ativa.
No entanto, à medida que envelhecem, os adultos tendem a enraizar crenças rígidas, reduzindo sua disposição para questionar e explorar novas ideias. Para fortalecer o Leadership Prompting, é essencial substituir a necessidade de ter todas as respostas pela disposição de fazer mais e melhores perguntas. Quanto maior o volume e a qualidade dos questionamentos, maior será a capacidade de desafiar suposições, estimular a inovação e expandir perspectivas dentro das organizações.
2. Aplicar experimentos mentais para estimular a inovação
Uma das formas mais eficazes de ampliar o pensamento estratégico e desafiar suposições é fazer uso de experimentos mentais. Esses exercícios intelectuais – conhecidos como thought experiments – envolvem a formulação de cenários hipotéticos para testar ideias, avaliar consequências e descobrir novas abordagens antes mesmo de aplicá-las na prática.
No mundo dos negócios, essa técnica foi amplamente utilizada por líderes inovadores, como Tony Hsieh, ex-CEO da Zappos, que incentivava sua equipe a explorar possibilidades por meio de perguntas provocativas. Muitas dessas questões pareciam, à primeira vista, irrelevantes ou absurdas – mas eram justamente essas provocações que levavam a insights disruptivos.
Exemplos clássicos incluem:
– O que faríamos diferente se tivéssemos um orçamento infinito?
– Como nossos clientes estão utilizando nosso produto de maneiras inesperadas?
O poder dos experimentos mentais reside exatamente nisso: ao questionar premissas tradicionais e explorar diferentes cenários, líderes podem desbloquear novas formas de inovar e se diferenciar no mercado.
3. Especificar o contexto para perguntas mais precisas
A eficácia de uma pergunta não depende apenas do que é perguntado, mas também de como e quando ela é formulada. Um estudo da Universidade Cornell, intitulado “It Is Not About What You Say, It Is About How You Say It: A Surprisingly Simple Approach for Improving Reading Comprehension”, conduzido por Sagi Shaier, Lawrence E. Hunter e Katharina von der Wense, reforça essa ideia. A pesquisa analisou como a ordem e a ênfase dos inputs – especificamente a sequência entre o contexto e a pergunta – influenciam o desempenho de modelos de IA baseados em linguagem natural (LLMs) em tarefas de compreensão de texto.
Uma das principais conclusões do estudo é que apresentar o contexto antes da pergunta pode aumentar a precisão da resposta em até 31%. Esse achado, todavia, não se limita à interação com IA, mas também se aplica à comunicação humana. Perguntas vagas ou sem contexto geralmente resultam em respostas imprecisas, enquanto perguntas bem estruturadas, contextualizadas e diretas levam a insights mais relevantes e decisões mais assertivas.
Por exemplo, em vez de simplesmente perguntar “Como podemos melhorar nossa estratégia?”, uma abordagem mais eficaz seria:
“Considerando as tendências recentes do mercado, quais ajustes estratégicos devemos priorizar nos próximos seis meses para aumentar nossa competitividade?”
Ao estruturar perguntas com um contexto claro e relevante, líderes não apenas melhoram a qualidade das respostas obtidas de suas equipes, mas também otimizam o uso de ferramentas de IA, tornando as interações mais eficientes e estratégicas.
Dominar o Leadership Prompting é um diferencial poderoso, mas não suficiente por si só. A verdadeira vantagem competitiva surge da combinação entre um questionamento estratégico e um pensamento crítico aguçado. Afinal, de nada adianta formular boas perguntas se não soubermos avaliar a qualidade das respostas – seja vindas de uma equipe, seja geradas por um sistema de IA.
Esse ponto é destacado por Po-Shen Loh, professor da Carnegie Mellon University, que, em uma entrevista, fez uma observação provocativa sobre o impacto da era digital no aprendizado:
“As pessoas costumavam ir à escola para aprender a fazer o dever de casa. Hoje, todos precisam aprender a corrigir e revisar o dever de casa.”
Na prática, isso significa que, com a proliferação de ferramentas baseadas em IA, o papel do líder não é apenas consumir informações, mas interpretar, questionar e validar essas respostas.
No entanto, um aspecto continua indispensável: a necessidade de avaliar constantemente a qualidade das respostas. Em um cenário onde a Inteligência Artificial ainda está longe da perfeição, o sucesso não depende apenas de saber perguntar, mas de saber interpretar e validar cada resposta recebida.
( fonte: MIT Technology Review)
